Perfeccionismo e saúde mental em alunos de medicina
Resumo
O perfeccionismo é um conceito multidimensional caracterizado pelo esforço contínuo do indivíduo por padrões elevados e autocrítica, independentemente dos padrões pessoais serem alcançados. Nesse sentido, o indivíduo estabelece a si próprio altos padrões de desempenho. Essa personalidade caracteriza-se por uma mentalidade binária: cada resultado é visto como total sucesso ou fracasso, e os erros tendem a ser generalizados de forma excessiva, causando grande sofrimento psíquico. Nesse sentido, diferencia-se o perfeccionismo adaptativo do desadaptativo. O primeiro corresponde à busca realista por excelência, associado ao bem-estar e à autoaceitação; o segundo relaciona-se à extrema autocrítica, expectativas irreais, medo do fracasso e sintomas promotores de psicopatologias, como depressão, ansiedade e estresse. Estima-se que até 25% dos universitários podem apresentar transtornos psiquiátricos, situação exacerbada no curso de medicina devido à alta pressão acadêmica, competitividade, alta carga de estudo e cultura de valorização ao auto-sacrifício. Assim, para abordar este problema, a presente pesquisa utilizou a Escala Curta Quase Perfeita (SAPS) para identificar tipos de perfeccionismo e a escala DASS‑21 para mensurar sintomas de depressão, ansiedade e estresse em estudantes de medicina de uma universidade da capital do país. O estudo envolveu abordagem quantitativa e transversal e contou com a participação de 271 acadêmicos. Os resultados indicaram que 43,5% dos estudantes eram perfeccionistas adaptativos, 13,7% perfeccionistas desadaptativos e 42,8% não perfeccionistas. Sobre a associação do perfeccionismo com as psicopatologias, embora a maioria dos adaptativos não apresentasse transtornos, muitos ainda reportaram níveis moderados a severos de ansiedade e estresse, sugerindo que, em um cenário de grandes cobranças e altamente exigente, características inicialmente funcionais podem transitar para disfuncionais. Entre os desadaptativos, houve associação significativa com depressão moderada a severa (até 40%), ansiedade extremamente severa (mais de 40%) e estresse severo. A maioria desses estudantes reconheceu a personalidade perfeccionista e uma parte considerável indicou necessidade de ajuda profissional, embora uma parcela ainda rejeitasse esse apoio. Além disso, foi observada maior prevalência de perfeccionismo, especialmente desadaptativo, entre estudantes do sexo feminino. Outrossim, acadêmicos dos semestres iniciais também apresentaram maior predominância de perfeccionismo adaptativo, possivelmente explicado pela pressão de adaptação e expectativas elevadas no começo da formação. Em suma, o perfeccionismo desadaptativo mostra-se um fator de risco importante para saúde mental na medicina, indicando a necessidade de programas institucionais que promovam suporte psicológico e o desenvolvimento de habilidades socioemocionais, a fim de proporcionar bem-estar aos acadêmicos.
Palavras-chave
perfeccionismo; adaptativo; mal-adaptativo; psicopatologias.
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PDFDOI: https://doi.org/10.5102/pic.n0.0.10898
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