Processos subjetivos de psicólogos acerca do aumento de diagnósticos de TEA entre crianças a partir da pandemia de Covid-19
Resumo
Este estudo, baseado na Teoria da Subjetividade de González Rey, teve como objetivo geral investigar os processos subjetivos de psicólogos acerca do aumento dos diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista (TEA) entre crianças a partir da pandemia de COVID-19. Os objetivos específicos foram: 1) compreender, em termos de sentidos subjetivos e configurações subjetivas, como os psicólogos participantes experienciam o aumento desses diagnósticos desde o início da pandemia, 2) visibilizar, a partir desses processos subjetivos, como se organizam, em suas singularidades e em sua alimentação mútua, as subjetividades individuais dos profissionais e a subjetividade social da Psicologia no que se refere a esse fenômeno e, por fim, 3) refletir sobre a prática profissional da Psicologia no cuidado com crianças diagnosticadas com TEA. Utilizando o método construtivo-interpretativo, fundamentado na Epistemologia Qualitativa, foram realizados um encontro grupal e dois encontros individuais com os três psicólogos participantes da pesquisa, que atuam no atendimento a crianças em diferentes contextos clínicos. Visando favorecer a expressão múltipla dos participantes, os instrumentos utilizados foram a dinâmica conversacional e o complemento de frases. A construção e a análise da informação permitiram pensar que o crescimento na procura e na emissão de diagnósticos de TEA é vivido pelos participantes como atravessado por múltiplas dimensões técnicas, institucionais e afetivas, e fortemente influenciado pelas transformações sociais geradas pela pandemia. Entendeu-se que os participantes experienciam sentimentos ambíguos, tais como insegurança, sobrecarga e conflito ético, diante da demanda crescente por avaliações diagnósticas, especialmente em contextos de sofrimento psíquico inespecífico. Além disso, emergiu a compreensão de que o diagnóstico de TEA vem sendo utilizado para nomear situações muito diversas, o que levanta questionamentos sobre a medicalização da vida e o papel da Psicologia na legitimação ou contestação desse processo. Foi possível pensar também nas tensões entre a prática clínica, as expectativas familiares e escolares, e a necessidade de posicionamentos críticos diante da patologização da diferença. Considera-se que o aumento dos diagnósticos não pode ser compreendido apenas a partir de parâmetros clínicos, mas como um fenômeno complexo que configura as subjetividades dos profissionais e interpela os fundamentos ético-políticos da atuação psicológica. Como considerações finais, destaca-se a importância de promover espaços de escuta, supervisão e formação continuada que auxiliem os psicólogos a lidar com os desafios impostos por esse cenário. O estudo contribuiu para o campo da Psicologia ao ampliar a compreensão sobre os efeitos da pandemia na prática profissional e ao tensionar o uso do diagnóstico em contextos de vulnerabilidade.
Palavras-chave
subjetividade; TEA; psicologia clínica; psicólogos; pandemia de COVID-19.
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PDFDOI: https://doi.org/10.5102/pic.n0.0.10775
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